terça-feira, 21 de outubro de 2008

MEMORIAL - 2.1 Minha formação como professor

2.1 Minha formação como professor

Querer ser, não é bem o termo para se escolher uma profissão. O tempo me mostrou e pude ver muitas escolhas se esvaírem no tempo e no espaço. A condição financeira da maioria dos brasileiros sendo baixa, não lhes dá condições de custear os estudos de sua preferência, e assim, se formam, quando conseguem, pelas oportunidades surgidas e no curso que disponibilizam para suprir a necessidade de momento, ou de desejo e condições do governo. Para aqueles que se adaptam com as oportunistas profissões, têm nelas seu futuro garantido e, passam a dedicar com afinco tornando-se bons profissionais, ao contrário dos que se dizem “não ter nada a ver comigo” se enveredam procurando outros caminhos sem saber ao certo o que encontrarão, ou ficarão, simplesmente, ocupando lugar, deixando o tempo passar pela vida sem sentirem a vida passar pelo tempo. Não estou incluído neste último caso, pois sei o quanto andei atrás de uma oportunidade e, quando surgiu não pensei duas vezes; uma me bastou para decidir o caminho que deveria tomar. Pode não ser a profissão dos meus sonhos de criança, mas, é a profissão de professor que me serve e que me faz identificar com que sempre preguei. Desde minha infância, sabendo depois, é claro, já me portava como instrutor quando conseguia me preparar para poder transmitir os ensinamentos aos demais colegas, como nos casos das brincadeiras de circo, dos roteiros do cinema, das histórias de bang-bang (mãos-ao-ar), enfim, sempre me concederam a liderança para que fluíssem os divertimentos entre nós. Esse era o sinal a seguir, mas como? Nessa época, na sociedade em que convivi, via-se na criança um futuro trabalhador braçal, principalmente que sendo eu o caçula de uma família de marceneiros, por conseguinte seria mais um artista da madeira. No entanto, por uma iniciativa de seis amigos adolescentes, entre eles eu, com quinze anos e, a cinco concluídos o 4.º ano escolar, recorremos ao, primeiro, prefeito de nosso município, Sr. Fernando Ramirez, para requerer que intervisse por nós, pioneiros pretendentes de estudar o ginásio, no sentido de que o Colégio Estadual Conselheiro Rodrigues Alves, da cidade vizinha de Macaubal, distante dezoito quilômetros de nossa cidade, estendesse o exame de admissão para nossa região. Registra-se, então, na cidade, a ousadia de seis jovens que viajaram durante quatro anos seguidos e tiveram o prazer de fazer, em final de 1969, a primeira festa de formatura ginasial, para espanto daqueles que não acreditavam que aqueles jovens suportariam a maratona diária de ir e vir por estrada de chão, ora de ônibus, ora de caminhão, vezes de carona, vezes de lotação e, até de pé quando do tempo chuvoso ou tempo de pane do veículo. Mas, tudo isso era encarado como um desafio, pois tínhamos consciência da árdua batalha e, assim, considerávamos que cada dia era uma vitória e, sendo vitória, deve ser comemorada como tal: alegria, animação e satisfação; situação que os desacreditados desconheciam.
Desses quatro anos de ginásio, aprendi muitas coisas e, dentre uma delas foi gostar de pão com mortadela. Brincadeirinha! É que este foi o meu cardápio de almoço durante essa temporada de viagem; razão da saída de casa ainda cedo e o almoço não estar pronto. A melhor aprendizagem foi saber dar valor ao pouco que se consegue, pois ele sempre será o motivo do início, por exemplo, são os minúsculos grãos de areia que se acumulam e formam as grandes dunas.
Aprendemos por etapas, aos poucos e, assim, devagar fui absorvendo o que me ensinavam e a ponto de ficar pronto para enfrentar o novo desafio: o colegial; só que agora noutra cidade, em Nhandeara, no Colégio e Escola Normal Estadual Pedro Pedrosa. Um pouco mais longe. Vinte e três quilômetros de chão batido e, de novo, de ônibus, de perua, de carona, de pé, de carrão, não, digo, de coração. De novo, nós seis, por mais três anos enfrentamos o sabor do vento, só que agora a brisa era noturna, os olhos já não avistavam mais as grandes pastagens, os cafezais, as lavouras; a escuridão embriagava a mente tornando-a sonolenta, quase parando. Nós o chamávamos de sono dos sustos (não dos justos), pois a cada momento algo de extraordinário acontecia: um buraco, um animal, vários buracos, vários animais, outro carro, uma brincadeira aqui, outra ali, até chegar ao destino quando de ida ou quando de vinda.
Essa ida e volta nos deram mais um título: ganharam mas não levaram, querendo nos dizer que nós não conseguimos nenhuma profissão e, realmente, foi. Recebemos, no final do ano de 1972, o Certificado de Conclusão do Curso Colegial na área de Ciências Físicas e Biológicas, habilitados para prestar vestibular ... e só? Isso já se sabia, mas não tinha outra escolha, era pegar ou largar. Desde aquela época e até hoje ainda, não consegui entender o pensamento de nossos governantes. Se o Brasil é um país agrícola, possui uma das melhores terras do mundo, porque não dar condições ao cidadão interiorano de se especializar no que a terra é capaz de oferecer?
Foi bom enquanto durou. Essa foi a frase que pude dizer quando recebi o canudo do curso colegial, pois não havia na minha região nenhuma escola para oferecer a continuidade do estudo de zoologia, que eu pretendia, principalmente, por ter adquirido uma boa base de conhecimentos a ponto de realizar experiências, que na época, foi muito comentada. Uma delas foi construir para a feira de ciência, promovida pelo colégio, uma máquina de tabuada usando uma caixa, que era usada por meu pai para guardar blocos de notas, pregos, 42 lâmpadas, duas pilhas de lanterna e uma porção de metros de fio encapado, desenrolado de uma bobina sem uso; conseguindo que ao tocar os dois cabos, nas posições alinhadas, em colunas, dos números representados pelos pregos, obter o resultado da multiplicação, acendendo a lâmpada correspondente. Pela figura, a seguir, faço a caracterização do que seria, mais ou menos, a forma geométrica do aparelho, com toda base externa, assim como as bases internas onde se fixaram os pregos, construídos em madeira, sem que houvesse necessidade de ajustamento. Dava a entender que a caixa tinha sido construída para essa finalidade. Coisa de adolescente que vê na sua criatividade a única peça do mundo.







Figura 2: Desenho representativo do aparelho para cálculo da tabuada de multiplicação. Apresentado na Feira de Ciências no ano de 1973



Meu pai, sendo proprietário de serraria, marcenaria e outros bens, poderia até ter condição de custear meus estudos, mas não o submeti a essa resposta, preferi, aproveitando o convite de meu cunhado para tentar trabalho e se, conforme for, os estudos, na cidade de Londrina, Estado do Paraná.
Figura 3: Mapa do Estado do Paraná, situando a cidade de Londrina.
Tentativa de vestibular

E, assim, já morando com minha irmã, em 1973, tentei uma seletiva para estudo preparatório do vestibular, mas sem sucesso. Nesse mesmo ano, em fevereiro, consegui a minha primeira assinatura na carteira de trabalho, em uma firma revendedora de terras, sendo ela a responsável pela minha ida para o Estado do Mato Grosso.
Nesta passagem da vida surgiu a primeira dúvida. Estudar ou trabalhar? Eis a questão. A firma triplicava meu salário para ser o chefe de escritório da filial a ser inaugurada na futura cidade, localizada na gleba onde se encontravam os lotes de terra para venda. Minha resposta veio com a conformidade de não possuir recursos para manter-me numa faculdade e, assim, indo para a floresta não teria onde gastar os meus salários e conseqüentemente os juntariam e retornaria para dar continuidade aos estudos, apesar de que esta minha decisão também pendeu porque iria de encontro ao que sempre quis: conhecer florestas, ver animais, sentir o ar puro e, esta era a oportunidade sonhada. E, assim, no dia 20 de agosto de 1974, me encontrei no meio de uma vasta floresta procurando no mapa o local da futura cidade Colíder.

Figura 4: Mapa do Estado do Mato Grosso, situando a cidade de Colíder.
Primeira experiência em sala de aula, como professor.
Nome dado em homenagem à firma colonizadora. Há minha volta somente previsão de prédios, porque na realidade, naquele dia, não existia nem o escritório para a venda das terras, sendo improvisado no cômodo de meu alojamento, diferente do visto um ano mais tarde. Parecia com a chamada corrida do ouro. Mudanças
O nome de Colíder está ligado à firma que a colonizou, e pela facilidade de compra, os habitantes chegavam, como diz o ditado: “aos pacotes”, com famílias vindas do Estado do Paraná, e também, um pouco de São Paulo, Minas Gerais e outros estados, ocasionando um crescimento rápido e, conseqüentemente, muitos alunos para estudarem. Daí minha primeira experiência como professor. Lecionei para o ginásio as disciplinas de Práticas Comerciais, Educação Artística e Práticas Industriais, por um ano, não sendo mais possível devido à ocupação particular, principalmente de músico que exigia deslocamentos para outras cidades e, em 1983, sai para uma turnê passando pelo Mato Grosso, Acre e terminando no Amazonas, precisamente na cidade de Eirunepé, onde incentivado pelos novos amigos, cursei o Projeto Logos II, ministrado pela Secretaria de Educação do Estado do Amazonas, que foi a porta de entrada que oficializou, em 1988, a minha profissão de professor, que hoje tenho o maior prazer de ser, inda mais agora, que tenho a oportunidade de participar, pelo município de Itamarati, do Projeto Proformar, ministrado pela Universidade do Estado do Amazonas e me fará um profissional de nível superior.

Figura 5: Mapa do Estado do Amazonas, situando as cidades de Eirunepé, onde cursei o Logos II e, Itamarati, onde vivo atualmente e exerço a profissão de professor.


Agora, pensando bem, e analisando todos os fatos, minha formação de professor foi encontrada quando parei de procurar, nesse caso, posso dizer “caiu nos braços”.

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